Um Certo Olhar
Liberdade para comentar, imaginar, pensar, inventar, sonhar, confessar, relembrar, narrar. Enfim: palavras, palavras, palavras. Não acredite nelas se você não gosta de ler.
Sábado, Julho 14
Nem tudo está perdido
Deixa eu contar uma coisa: há alguns dias, de madrugada, dois homens se engalfinharam aqui na rua, vi tudo da janela, e por certo motivo que vou expor aqui a cena ainda não saiu da minha cabeça. Moramos na casa da minha sogra, no Centro. Logo adiante, na mesma rua, há um boteco de almofadinhas, O Lorde. Como se sabe, poucos lugares são mais propícios para se arrumar uma confusão do que essas chamadas casas noturnas. Arena para o flerte e os jogos amorosos, regados a bebidas e outros tipos de entorpecentes, certamente de uma hora para outra, algum conflito se instaura, algum calo é pisado, alguém vai roçar de maneira indevida na mulher do próximo, ou algo de gênero. Então a bomba estoura. Em geral dentro mesmo do estabelecimento, com o envolvimento da segurança e até de gente que a princípio nada tem que ver com a confusão. Porém, nem tudo está perdido, como ficou comprovado na briga daquela madrugada. Pois certamente os dois contendores, iniciada a desavença, convocaram-se mutuamente para resolver a pendenga na rua. Que nem antigamente. Quem disse que o hábito estava perdido? Mas, não pára por aí não, senão não teria muito o que se regist
O detalhe que mais chamou a atenção não foi esse. Saíram seis homens do boteco. Em dois grupos, um de dois e outro de quatro. O que seria de se supor? Um feroz, sangrento, e talvez injusto duelo de quatro contra dois. Nessas horas, do jeito que as coisas andam hoje em dia, é normal que se espere, além do mais, que alguém saque uma arma e algum foguetório se inicie. Mas naquela noite foi diferente. Não houve nem uma coisa nem outra, para a minha surpresa. Não houve nenhum massacre injusto de quatro contra dois, nem estouro de tiro. Abri a janela assim que começaram os rumores da confusão e vi um contra um. Empurrando-se e xingando-se. Mas para mim, os três que agitavam de um lado e o homem solitário que fumava tranquilamente seu cigarro de braços cruzados do outro, assistindo o duelo, não passavam de meros curiosos e agitadores da rinha. Depois saberia que não. Eles não se moveram quando foi desferido o primeiro golpe, um soco certeiro e retumbante, um sólido estalo que ecoou na noite fria. A rua estava deserta. À exceção de mim, ninguém abriu a janela para ver. Em seguida, uma sucessão de cruzados. Os lutadores se moviam de forma grotesca em torno do outro, era visível que não possuíam a mínima técnica. Porem, ímpeto de resolver aquela diferença não lhes faltava. Nenhum dos quatro que assistia interferiu; lembrava uma briga de antigamente, uma parada resolvida no braço, sem covardia, um legítimo e limpo duelo. A luta até que foi animada, apesar da imperícia dos batedores. Ou talvez terá sido por isso que ela aparentou certo charme, no que apresentou de improvisação e gestos tresloucados? Todavia, o mais importante não foi isso. Mas a pergunta final que surgiu de tudo. O que impediu o grupo maior de se prevalecer de sua supremacia numérica e, partindo com fúria para dentro, como fazem os dançarinos de funk em seus abarrotados e sinistros bailes, esmagar o desajeitado lutador? E o outro observador solitário, por que continuou fumando calmamente seu cigarro, braços cruzados, e não moveu uma palha em socorro ao amigo, mesmo quando este se mostrou em desvantagem por alguns segundos? Esse para mim é o cerne da questão. O que não entendi direito até agora. Só me resta crer, repito, que nem tudo está perdido. Há ainda em certos lugares o respeito a determinado código de conduta, como ficou demonstrado aqui. A disputa, desde as primeiras trocas de ofensas, passando pelo momento em que se enforcaram por uns segundos, um curvado sobre o corpo do outro, vergados pela gravata mútua que se aplicavam, até o momento em que decidiram por conta própria que já estava bom, sem se ter um vencedor declarado, não durou mais do que cinco minutos, mas pareceu um tempo muito maior. Após o que, cada qual foi para o seu lado. Um se junto ao grupo dos outros três agitadores e retornaram em direção ao boteco. O outro se juntou ao amigo solitário, que mal teve tempo de terminar o cigarro, e silenciosamente se dirigiram para o lado oposto. Se conversaram algo entre si somente eles poderiam dizer, pois o silêncio em volta deles era bem maior, esmagador. Caminharam pela rua vazia, embalados apenas pelo ranger da sola dos seus sapatos. O que participou da luta enxugava o canto da boca com o dorso da mão, cambaleava um pouco, até sumirem ao dobrar a esquina. Apenas não deu pra ver se sangrava.
.: posted by ÁUREA MARIA XAVIER PEREIRA GOMES 6:58 PM
Sexta-feira, Julho 13
O eterno retorno
Todo escrevinhador que encara seu ofício de forma mais ou menos séria (seja lá o que isso queira significar) e independente de aonde ele pode chegar com isso, em algum momento se faz ou se fará a pergunta: escrever pra quê? Como eu me declaro uma espécie de escriba e escolhi esse caminho, evidentemente tenho essa pertinente questão entranhada dentro de mim. E não se deve dar nenhum crédito a um suposto escritor que não a tenha. Pois bem, no meu caso, não posso ir muito longe nas minhas motivações pois não passo de um escritor de cartas e de blogs. Mas até pra isso tem que existir uma justificativa. E como sou um missivista aposentado, tenho que pensar somente no que me leva a voltar a escrever em blogs. Ora, em primeiro lugar, é porque com toda honestidade não vejo porque não escrever em blogs. Tenho internet acessível e essa eterna vontade de escrever, escrever, escrever qualquer coisa. A velha necessidade de expressão. Não a necessidade de se fazer entendido, que já passei dessa fase. Porém, certamente o desejo de ser cada vez mais simples, algo assim. Busco uma maneira ainda indefinida de ser explícito. Isso passa pelo quê, em se tratando da escrita? No meu caso é que somente por meio da escrita é que consigo começar a organizar minha visão, meus pensamentos e meus sentimentos. Ela é que me articula por dentro, ela é que me faz aproximar mais da minha verdade. Sem a escrita sou um barco à deriva. Sou uma frase desconexa, sem trocadilhos. Perco minha capacidade de raciocínio. Emburreço-me, embruteço-me. Uma desgraceira só. Por isso invento de escrever. Toda pessoa tem lá sua maneira de se situar no mundo e representar bem o seu papel, de uma forma ou de outra. E, ao próprio modo, ser feliz. Ou coisa que o valha. Visto assim, pode parecer inexplicável para mim mesmo essa minha longa ausência do campo da escrita, de qualquer rabisco que seja, pois em nenhum outro lugar sou mais completo, mais íntegro, mais eu mesmo. Se um mero blog merece uma prólogo tão solene? Não se trata meramente de blog e sim da prática. Um blog não é suporte adequado para nada pretensioso em matéria de escrita, claro que concordo. E nem pretendo isso. É somente para rabiscar mesmo. Idéias, sensações, comentários, sentimentos, impressões, o que seja. É como se diz: palavras boas para se jogar ao vento. E que bons ventos as carreguem. Pois digo: o que vale é o exercício.
.: posted by ÁUREA MARIA XAVIER PEREIRA GOMES 9:03 PM
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